A MÚSICA DA FALA

foto: daryan dornelles
No ano de 1985, em meio a punks e skatistas, já era possível assistir aos primeiros b-boys se reunindo na estação de metrô São Bento, no centro da capital paulistana. A cultura hip-hop, vista não só como uma forma de entretenimento, mas também de protesto e de superação, encontrou nos jovens das periferias de São Paulo um terreno fértil para se desenvolver. Musicalmente, o rap era a linguagem mais legítima, criativa e poética para aqueles que vinham, há gerações, sofrendo de extrema vulnerabilidade social.

Mesmo utilizando uma linguagem bastante hostil e invasiva, o rap conseguiu ganhar espaço na mídia na década seguinte. Não era mais possível ignorar a agitação promovida por nomes como Racionais MC’s (SP), Pavilhão 9 (SP), MV Bill (RJ), Planet Hemp (RJ), Faces do Subúrbio (PE), GOG (DF), Câmbio Negro (DF) e seus milhares de seguidores. Entretanto, com a virada do século, ficaram nítidas as mudanças pelas quais o rap nacional estava passando: mais permeável, aderiu-se a outros gêneros e discursos, atenuando assim o seu caráter político. Mesmo com a crítica das alas mais ortodoxas do movimento, diversos artistas aproximaram-se de uma estética pop, caso de Projota, Karol Conka, Rael e Flávio Renegado. Com uma visão mais pragmática e conciliatória, uma nova geração de rappers conseguiu penetrar em espaços pouco propensos ao gênero e, consequentemente, ser absorvida pelo mercado e criar novos padrões estéticos e comportamentais.

Vinda da periferia de Curitiba (PR), Karol começou sua carreira em 2002. No ano seguinte, integrou o grupo Agamenon, ao lado dos MC’s Bigue, Cadelis e Cilho. Mais a frente, participou com Cadelis, Nairóbi, Mike Fort, São Nunca, Guerra Santa e Nel Sentimentum do grupo Upground Beats. Em 2008, já em carreira solo, teve o seu single “Me garanto” indicado ao prêmio Hutuz na categoria “Melhor demo feminino”. Em 2011, disponibilizou para download um EP promocional com sete músicas, dentre elas “Melhor que se faz” e “Marias”. Com a boa repercussão do trabalho, Karol investiu em seu primeiro clipe, “Boa noite”, o que a levou a concorrer na categoria “Aposta” no VMB 2011. Em 2013, lançou seu álbum de estreia, o elogiado Batuk Freak (Deckdisc), produzido por Nave Beatz. Influenciado pela música tradicional e com referências às religiões afro-brasileiras, o disco abordava temas relacionados ao universo feminino e ao preconceito racial. A convite de Boss in Drama, participou do single e do clipe de “Toda doida”, eleita uma das dez melhores músicas de 2013 pela revista Rolling Stone. No mesmo ano, ganhou o Prêmio Multishow na categoria “Artista revelação”. Sua música, “Boa noite”, foi escolhida para fazer parte da trilha sonora do game Fifa 14. Em abril deste ano, ganhou destaque ao aparecer em uma lista de “Dez novos artistas que você precisa conhecer” da revista Rolling Stone norte-americana.

Encontramos a rapper no Teatro Oi Futuro Ipanema. Recém-chegada de sua terceira turnê pela Europa, Karol veio ao Rio para se apresentar no festival Sonoridades ao lado de BaianaSystem e Márcio Victor. No café do teatro, conversamos a respeito de sua carreira, cena curitibana, racismo e seu próximo álbum.

BD — Acho que poderíamos começar falando um pouco de Curitiba e da cena de rap da cidade...

KAROL CONKA — Curitiba é uma cidade pequena... não é muito conhecida por sua movimentação. Apesar de produzir bastante coisa, ela não tem o mesmo apelo que São Paulo e Rio. Não tem a mesma força, a mesma visibilidade... Além disso, a cena de rap curitibana é morna. Não vou dizer que existe uma cena que faz e acontece porque estaria mentindo. Mesmo se afirmasse isso, qualquer um veria que a realidade é outra. É por isso que muita gente sai de lá e vem parar no Rio ou em São Paulo. Eu talvez seja mais uma que acabe morando aqui. Porque tem uma hora que fica cansativo viver em Curitiba e trabalhar em outros lugares. A cena de lá é bem pequena e quem se destaca são as exceções. E eu sou uma delas. Mas nunca me considerei a melhor ou coisa assim. Não sei explicar direito como aconteceu, mas fiquei em evidência na cidade justamente por não parecer de lá. Talvez por ser neta de baiana, sou um pouco deslocada dos costumes da cidade. Acho que foi por isso que tive facilidade em conversar com outros gêneros musicais, diferente da maioria dos rappers de Curitiba. Sou a única que mantém esse diálogo por lá. O meu trabalho tem influências de funk, música baiana... faço uma miscelânea! E isso me deu destaque na cena. Mas, sinceramente, prefiro falar de mim, das minhas coisas e do meu trabalho. Desde que comecei, sempre briguei para que mostrassem de onde eu vim. Nos flyers, eles colocavam “Karol Conka SP”. Eu falava: “Coloca Curitiba!” Isso é uma coisa que me deixa incomodada, sabe? Assim como quando me perguntam:“Curitiba?! Tem alguma coisa lá?” Como se não tivesse nada acontecendo na cidade ou se ela ficasse em outro país.

BD — Você é de uma geração de rappers que, tanto no discurso, quanto esteticamente, foge bastante do que era feito nos anos 90. No seu caso, isso atraiu um público bastante distinto...

Karol — Sim! O meu público hoje é bem variado. Tanto em idade quanto em gênero... tem todo tipo de pessoa no meu show. Eu me lembro que, certa vez, estava numa festa, na casa de um amigo.... havia muita gente e ele falou: “Galera, essa menina aqui canta rap! Vocês não querem ouvir?!” O pessoal estava bem louco, frito: “Ah, não! Rap não! Não! Não!” Mas, mesmo assim, esse meu amigo colocou o meu disco. E todo mundo gostou! Até quem não curtia rap! As pessoas, de alguma forma, se identificaram com o meu som, se identificaram com algo que estava ali: a batida, as letras... Eu costumo falar de coisas que estou vivendo, do meu cotidiano. Isso desperta o interesse de muita gente e não só do público de rap. Além disso, no meu som, se você mudar abatida, você vai ver que ele se transforma facilmente em uma MPB, um samba, ou até mesmo um rock. Por causa disso, muita gente me vê como uma cantora da música brasileira e não como uma rapper. Isso gera uma identificação maior. Mas, ainda assim, fico muito surpresa com a quantidade de pessoas que gostam do meu som e que não são fãs de rap.


BD  Você falou das suas batidas. Certamente o Nave tem bastante importância nesse sentido. Como você o conheceu e deu início a essa parceria?

Karol — Conheci o Nave em Curitiba, na casa de um amigo. Eu já me apresentava em eventos e estava conhecendo mais sobre batidas. Ele, então, disponibilizou alguns beats para mim e, depois de um tempo, fiz umas letras e lancei na internet. A resposta foi boa e senti vontade de fazer um trabalho produzido por ele. Foi assim que nasceu Batuk Freak. A minha música preferida é “Mundo louco”... foi a melhor letra que fiz até hoje e acho que foi a melhor produção do Nave. Acredito muito em sintonia. Acho que o sucesso do disco vem daí. Tínhamos confiança de que esse trabalho ia causar, de que ia chacoalhar o rap nacional. Eu queria provocar as pessoas, provocar os conservadores. Fazer com que eles pensassem: “Mas isso é rap? Não... mas será?” E foi exatamente isso que aconteceu quando saiu o Batuk Freak. Foi ótimo! Eu já estava fazendo shows em boates gays e tudo mais. Era o que eu mais queria. Achava que seria difícil quebrar essa barreira justamente por ser do rap. Mas foi o público gay que me alertou: “Karol, você é muito mais que rap. Você pode representar muitas outras coisas com esse seu som. ” Achei isso bem bacana e guardei pra mim.

BD  Tanto a sua música quanto o seu visual são bastante próximos do universo gay, não?

Karol — Sim. Eu acho legal. Desde pequena, tenho ímã pra gays. Minha mãe vivia falando isso. Sempre havia algum amigo que tinha dificuldades em se assumir e que eu ia lá dar uma força: “Olha, você tem que ser você e nãnãnã...” Aos dez anos, tive uma melhor amiga chamada Débora, ela já devia ter uns 30 e poucos e era travesti. Eu ficava fascinada: “Como assim? Ela é um homem? Mãe, me explica! Ela é tão linda!” Foi aí que descobri que você pode ser o que você quiser. Eu ia direto à casa da Débora, ela fazia bolos, botava música, se arrumava, colocava cílios postiços... eu achava tudo lindo! E minha mãe não se importava. Só que lá no condomínio da Cohab, as outras mães não permitiam que seus filhos fossem à casa da Débora... Sempre fui aquela espectadora da MTV que ficava esperando ansiosa pelos clipes da Beyoncé e de outras divas do pop. Aquilo era fascinante para mim. Quando comecei a fazer rap, percebi que havia uma coisa de turminha, de “não pode isso, não pode aquilo”... Não tinha gays no rap! E aí, um dia, em um dos meus shows, uma produtora veio falar pra mim: “Olha, chegaram uns três gays na balada.” Na mesma hora, disse: “Bota lá na frente!” Eu me lembro até hoje do que eles falaram: “A gente não vinha por medo de ser uma festa de rap, mas como era você, como você é a nossa pop do Brasil...” Eu falei: “Jura?! Eu sou pop?!” E eles: “Sim, você é a nossa Rihanna, a nossa Lady Gaga!” Geeeeeente! Aí pensei: “Ok, eu sou pop!” [risos] Fiquei com isso na cabeça e, a partir daí, passei a levar uma peruca pros shows e fazer um coverzinho da Beyoncé ou da Rihanna. Isso, no universo gay, é visto de uma maneira muito divertida e saudável. Mas no rap não. Só que, hoje em dia, posso fazer o que quiser no meu show. Porque tenho um discurso cravado:“Karol é liberdade.” Mas no começo não era assim tão fácil.


BD  Houve muito preconceito por parte dos rappers por você fazer música pop?

Karol — Um pouco. Em 2011, na primeira vez que fui a São Paulo, toquei no Sesc Pompeia.Eu não tinha nem disco! Muita gente pensou: “Meu, qual que é?! A menina ainda não lançou nada! Entrou ontem e já está no Sesc?!” Nesse dia em que me apresentei, tinha muita gente, inclusive algumas pessoas que me reprovavam, pessoas que não aceitavam meu trabalho e que pagaram o ingresso só pra me provocar, pra ficar fazendo cara feia e levantando o dedo do meio pra mim [faz o sinal]. Percebi o que estava acontecendo e passei a cantar apontando pro grupo. De boa. Quando acabou o show, umas três meninas foram no meu camarim e me pediram desculpas. Porque elas tinham ido com a intenção de me afrontar, mas, na terceira música, já haviam se rendido ao som. Aí fiquei feliz! Porque não sabia o que estava acontecendo, né? Foi ali que percebi que realmente estava vindo com um jeito diferente. Chegaram a me chamar de travesti e de axezeira do rap! Falaram que eu estava estragando o movimento. Mas não liguei. Sabia que estava no caminho certo. O mundo do rap ainda é muito fechado. Talvez isso dificulte o seu reconhecimento como representante legítimo da música popular brasileira. Porque ainda tem muita gente presa a estereótipos que não cabem no Brasil. O rap é americano. Ele é lá de fora. Então, a gente precisa inventar o nosso rap, entendeu? Mas como algumas pessoas ainda não estão acostumadas com a mistura do suingue brasileiro na batida do rap, fica mais fácil falar que o som é pop ou outra coisa qualquer. Por exemplo: muita gente fala que o que o Criolo faz não é rap. Porque acham que ele tem que ficar de cara feia falando apenas a respeito de crimes e injustiças sociais. Só que se esquecem de que o rap é ritmo e poesia! Eu sei que os anos 90 foram os anos dourados do rap no Brasil, mas eles já passaram. A gente está em 2014! É por isso que meu rap é diferente! Não posso ficar presa àquela época. Só que certas coisas ainda são difíceis de aceitar nesse meio. Muita gente não consegue entender esse processo de evolução do rap nacional.

BD — Em outra entrevista, você chegou a afirmar que foi mais influenciada pela MPB do que pelo rap...

Karol — Muito mais! Até pensei em ser compositora de MPB! Cheguei a fazer um samba para a Maria Rita! Há uns três ou quatro anos. Jurava que seria compositora: “Vou vender música!”

BD  E você enviou para ela?

Karol — Não. Está guardada até hoje! Mas eu queria muito fazer esse tipo de coisa, de compor para outros artistas da MPB. Cresci ouvindo Bezerra da Silva, Milton Nascimento, Elis Regina... Quando era pequena, meu Deus era Milton Nascimento! Eu dizia que meu nome era Karol Nascimento! [risos] Fazia essa brincadeira por causa dele. Quando percebi que era capaz de fazer poemas e tal, pensei: “Ai que lindo! Vou ser cantora de MPB!” Eu amava Adriana Calcanhotto! Queria ser que nem ela. Só que percebi que... Como é que se canta?! [risos] Como é que faz?! Pedi pra minha mãe me por na aula de canto, mas ela: “Não! Não tenho dinheiro.” Então, eu pegava o DVD das Destiny’s Child, botava no repeat e ficava a tarde inteira, depois do colégio, estudando cada detalhe. Sei o DVD inteiro! Aquilo era o único material que eu tinha pra tentar aprender a cantar. Fui aprendendo como podia, com o que tinha na mão. Daí, quando ouvi um rap pela primeira vez, lá na minha rua, percebi que me sentia mais à vontade naquele ritmo, me senti atraída e desafiada! Também percebi que não havia muitas meninas fazendo aquilo. Seria uma parada que eu poderia chegar causando. Então pensei: “Vamos ver se consigo impor as minhas ideias...” Uma coisa que sempre fui contra é você ser uma coisa que você não é só pra agradar o outros... Então, subi no palco de saia, rímel e fui chamada de puta. Porra! Na minha época, mulher no rap ou era puta ou era macho! Era como os caras gostavam de falar, pra tirar uma onda. Eu acredito que, independente de como a mulher se vista, ela tem que ser ela. Então, o que acontecia é que, antigamente, muitas meninas preferiam fazer cara feia e se vestir de forma mais masculina para serem aceitas, para ter respeito dos homens do rap. Porque, geralmente, pelo menos no meu tempo, se você quisesse subir no palco pra cantar alguma coisa, teria que sair com algum cara. E comigo não foi assim. Por isso é que me chamavam de puta. Porque eu tocava em todos os lugares em Curitiba. Só dava eu, eu, eu, eu, eu. O pessoal ficava comentando: “Mas como ela conseguiu? Com quem ela namora? Quem é o cara?!” Mas não havia cara nenhum, era o meu flow que abria as portas. Os caras começaram a me respeitar porque perceberam que eu rimava tão bem ou melhor do que eles, que eu tinha uma percepção aguçada pra escrever um rap. Com isso, vieram as aprovações e reprovações. Quando fiz uma participação no VMB de 2012 com o Bonde do Rolê, fui muito criticada pelo movimento: “Que falta de respeito! Você de short se esfregando em uns homens babados de óleo!” É que os dançarinos estavam todos de sunga, rebolando e eu gritava horrores porque não conseguia me ouvir, sendo que uma parte da letra dizia: “Menino bonito então me lambe, me lambe!” E na mesma noite teve os Racionais! Depois da apresentação, fui ao camarim conversar com eles e um deles me disse: “Karol, o que você fez foi lindo. A gente é que não pode fazer essa parada, né? Mas você tem tudo a ver com isso. Esse é o seu rap.”


BD — A sua geração parece estar bem à vontade nesse diálogo com o pop...  

Karol — Para mim, o difícil é fazer um rap mais tradicional, reto e careta. Toda vez que tento, preciso ficar controlando o meu vício de criar melodias. É algo que surge naturalmente. Mas sei que muitos do rap não aceitam isso. Quando saiu Batuk Freak, algumas pessoas me mandaram mensagens inbox falando assim: “Oi, você não me conhece, mas queria dizer que eu havia julgado muito mal o seu trabalho e hoje sou seu admirador.” Todo mundo tem o direito de achar o que quiser, né?... Lembro que quando saiu o clipe de “Gandaia”, alguém falou mal... Acho que foi a respeito da minha maquiagem, alguma coisa assim... fiquei beeem chateada [com voz afetada] Porque demorei uma hora ou mais pra fazer aquilo! [risos] Mas aí, fui ver com outros olhos, fui aprender mais sobre maquiagem e, realmente, percebi que estava um lixo. [risos] Você tem que entender que as pessoas querem dar a sua opinião. E eu gosto muito de ouvir. Acho que artista feliz é aquele que sabe ouvir. Porque não é pelo fato de você ser artista que você sabe tudo. Tem muito artista que não aceita palpite, que não aceita nada. Eu amo que me deem palpites, porque adoro o novo, adoro os desafios. Sempre tento pegar as críticas negativas e reverter em alguma coisa boa. Mas também há muita gente que só faz comentários maldosos e que não dá pra aproveitar nada. No YouTube, por exemplo, tem vários. Pra que eu fique bem, preciso imaginar que a pessoa que escreve esse tipo de coisa tem algum problema mental ou algo assim. E deixo pra lá. Não sou perfeita. Muita gente pode não gostar da minha música. Muita gente pode me achar uóóóóó! [risos] E eu tenho que aceitar isso.

BD — Há muitas referências às religiões afro-brasileiras em suas músicas. Você tem algum envolvimento com elas?

Karol — Não. Na verdade, é uma questão de referência estética mesmo. Estava escrevendo uns raps quando pensei: “Nossa, eles ainda não estão legais. Estão muito caretas, muito convencionais...” Daí, me lembrei do quanto gosto da Bahia, do carnaval, daquela bagunça. Sempre quis que os meus shows fossem uma festa de carnaval, aonde as pessoas iriam para se alegrar, se libertar... Então conversei com o Nave e surgiu “Boa noite”. Ainda me lembro de ter falado: “Cara, faz uma batida foda pra que as pessoas me chamem de macumbeira!” Ele: “Sério?!” Eu: “É! Quero ver o povo me chamando de macumbeira, achando que eu pá!” [estala os dedos e balança a cabeça] Daí o Nave colocou as baianas de Alagoas e fez o beat. Foi batata! Só se falava nisso dentro do rap: “Você ouviu aquela música da menina macumbeira? Ouviu o beat?! Parece beat de gringo!” Isso foi muito bacana. Porque alguns MC’s amigos meus chegaram a me criticar por fazer essa mistura. Disseram: “Karol, essa música não tem nada a ver! Que refrão é esse?! ‘Ouça esse som bem alto e se emocione’... Não quer dizer nada!” Aí eu falei: “Cara, o que você queria?! Não vou ficar ditando regras e conceitos, mandando você fazer isso ou aquilo. Quando canto ‘ouça esse som bem alto e se emocione’,quero dizer que quanto mais alto o som estiver, mais você vai ouvir a percussão, os chocalhos e, principalmente,as baianas. Você vai ouvir o canto negro.” Depois de um tempo, quando saiu o disco todo negrificado, as pessoas começaram a entender. Claro que não falo apenas da cultura e das tradições negras, também uso palavras do dia a dia que, através do meu flow, remetem à negritude. Acho isso importante. Porque se tornou normal a indústria branquificar o artista negro para que ele se torne pop. Peraí! Eu sou eu! Eu quero ser negra! Vamos respeitar. E isso acontece muito. Muitos artistas negros para chegarem a determinado patamar são branquificados pelos seus empresários e produtores. E aí eles estacionam! Isso já aconteceu com alguns artistas daqui. Artistas que a gente esperava que fossem representar a nossa cultura e aí, quando assinaram com a gravadora, se branquificaram. Não acho válido. Já recusei bastante coisa por causa disso. Para que eu me sinta feliz e inteira, preciso estar muito à vontade com o que estou fazendo.

BD — No início, você chegou a dizer que não era feminista. Mas, aos poucos, seu discurso foi mudando. Como foi isso?

Karol — Pois é. Eu fugia um pouco disso, mas foi dando entrevistas que descobri que tenho esse lado feminista. Percebi isso aos poucos, quando lancei o disco e começaram a falar que o meu discurso levantava a autoestima da mulher. E você sabe que era uma coisa que eu não tinha percebido?! Eu estava falando de mim! A menina de “Sandália” sou eu. A mãe que vai à janela, “acende vela e pede proteção ao Pai” é a minha mãe. Estava contando a minha história. Fecho com “Caxambu” porque era a música que eu ouvia toda final de semana na minha casa. Então, no disco inteiro, estou falando de mim. Claro que, sendo mulher, acabei ressaltando o poder feminino. Mas como não domino o assunto, achava que não tinha o direito de dizer que sou feminista. Seria um desrespeito com quem milita de forma mais direta.

BD — Batuk Freak é bastante confessional. Não teve medo das críticas? De certa forma, seria difícil não encará-las como um ataque pessoal...

Karol — Eu sabia que o disco era bom. Tive essa noção porque estudei muito, pesquisei bastante música brasileira, vi o que estava rolando e o que poderia soar bacana. Mas não dava para prever se iriam gostar dele, que o disco me levaria a ganhar prêmios. Achei que iria demorar um pouco para que isso acontecesse. Mas não tive medo das críticas. Não fiquei insegura. Estava preparada, entende? Sempre espero pelos dois lados, o bom e o ruim... [pensativa] Estou tentando lembrar se teve alguma crítica negativa, mas acho que não. Esse disco foi recebido com muitos elogios. O que foi superbacana.


BD — Li várias entrevistas em que você relata histórias de preconceito racial e bullying durante os anos em que esteve na escola. Mesmo com os projetos de inclusão desenvolvidos atualmente, ainda é bastante complicada a presença do negro dentro das instituições de ensino?

Karol — Sim! Bastante! Eu era aquela criança ligeira, sabe? Pegava tudo muito rápido. Havia outras crianças assim, mas eu era a que falava, que brigava, que subia em cima da carteira. Eu era bem louca. E notava que o professores tinham um jeito diferente de falar comigo e com outros alunos negros. Com oito anos, uma professora me chamou de macaca. Ela falou: “Todo mundo sentado! E você também, sua macaca!” Meus colegas começaram a rir e a gritar: “Macaca! Macaca!” Fiquei bem triste. Cheguei em casa e contei pra minha mãe. Ela foi à escola e a professora disse que nunca havia dito aquilo, que eu estava inventando. Então, com oito anos, aprendi que o professor não era uma pessoa que eu deveria respeitar como haviam me dito, que ele era apenas alguém que é pago para dar aula do jeito que quer e na hora que quer. Na escola pública onde eu estudava, havia professores que ficavam no celular a aula inteira e mandavam a gente fazer desenho livre! E isso na aula de ciências! Eu ficava só vendo, registrando... e contava tudo pra minha mãe. Eu era a rebelde do colégio. Cheguei a ser expulsa... Quando tinha uns quatorze anos, uma professora me chamou de drogada. Sempre tive problemas com horário e costumava chegar atrasada. Um dia, ela se virou para mim e disse que isso acontecia porque eu usava drogas! Fiquei indignada! Fiz um barraco na sala! Gritei: “Eu tô cansada! CAN-SA-DA! Quer saber? Pior é você que fica andando no parque só com um sobretudo porque ninguém te come!”

BD — Ela fazia isso?!

Karol — Fazia! E contei o seu segredo pra todo mundo! Essas histórias são tão absurdas que parecem mentira, né? Teve outro professor também, de artes, de um colégio estadual lá de Curitiba... Eu o adorava. Nem saía para o intervalo só pra continuar na aula. E ele ficava em silêncio. Não falava comigo. Eu apresentava os meus trabalhos e ele fazia apenas “uhum...” [balança a cabeça] Mas eu achava que era o jeito dele. Aí, um dia, pedi para que ouvisse uma música. Ele olhou para mim e falou: “Negros... [com expressão de asco] Olha aqui, garota, eu não gosto de negros”. Fiquei em choque. Totalmente constrangida. Foi horrível. A partir daí, ele me encontrava no corredor e falava assim: “E aí? Como vão os africanos?” Até que um dia eu respondi: “Comendo o cu dos italianos!” Em outra ocasião, um menino me disse: “Eu gosto tanto de você, mas não posso namorar uma negra. Então, pra que a gente possa ficar, você vai ter que tomar banho de água sanitária.” E fui me lavar com água sanitária! Fiquei esperando aquele negócio fazer efeito. Eu chorava, chorava... quando ia pegar ônibus, não sentava ao lado de brancos porque achava que eles iriam se incomodar e levantar. Então, pra não passar por esse constrangimento, eu preferia nem sentar...

BD — Não pensou em largar a escola?

Karol — Era o que eu queria fazer. Mas por conta dessas histórias e dos poemas que escrevia, chamei a atenção do movimento negro e ganhei uma bolsa no Colégio Positivo, que é um Colégio lá de Curitiba bem de playboy. Não me lembro muito bem de como foi esse contato com o movimento, acho que eles queriam ver como o negro era tratado dentro de uma escola com o perfil do Positivo. Eu era a única negra no turno da manhã. Foi um saco! Só aguentei ficar um mês. Porque não sou obrigada a ouvir professor falar mal de bolsista. Cara, peraí, que merda é essa?! Que bosta é essa?! Saí de lá chorando. Era como se eles dissessem: “O negro já está dentro de uma escola particular. Você quer mais o quê?! Vamos te tratar da mesma forma que tratamos qualquer negro lá fora!” Então, saí de lá indignada e nunca mais fui à aula. Eu estava no terceiro ano. Não vou passar por esse tipo de coisa, entende? Você ganha bolsa pra professor ficar jogando na sua cara que você é “filho da cota?!”

BD — E hoje? Você ainda enfrenta algum preconceito?

Karol — Rolou agora na Europa. A França é muito racista. Depois que você vai pra fora, você nota que em todo lugar tem essa porra. Mas o preconceito é bem maior fora do Brasil. O problema daqui é o racismo contra o negro. Isso é muito triste, mas na Europa, você vê racismo contra todos! Mas hoje, pelo fato de ser artista e por me vestir de forma espalhafatosa, quando vou a alguma loja, os vendedores querem mais que eu entre e torre meu cartão! Até esquecem que eu sou negra [em tom irônico]: “Ai, nossa, que estilosa!”

BD — Falando em Europa, Você foi muito bem acolhida pelos jornais e revistas de lá...

Karol — Sim. Os shows foram ótimos! Eu me apresentei em baladas, festivais... Cheguei a ser o line-up de alguns! A cerejinha do bolo! O pessoal ficava pulando e gritando. Parecia até que o público era só de brasileiros. Porque, normalmente, os europeus não são assim. Mas o meu som provocou isso neles. Eles gostaram muito do meu trabalho e, ao invés de me classificarem como rapper, me consideraram uma nova tendência da música popular brasileira. Como artista, fui muito bem tratada e respeitada por lá.

BD — Você também foi destaque na Rolling Stone americana...

Karol — Sim! Um monte de gente veio me perguntar: “Como você conseguiu?! Quem te colocou lá?! Por favor, me passa o contato!” Só que não teve nenhum! [risos] Fui pega de surpresa! Assim como no Prêmio Multishow. Eu realmente não sei como fui parar lá. Tenho certeza que só ganhei porque não foi por voto popular. Porque se fosse, teria perdido, lógico. Acho essa premiação bacana justamente por isso, por esse voto do júri que dá a oportunidade para as pessoas conhecerem novos artistas, saberem que existimos e que estamos fazendo um som diferente do arroz com feijão que se ouve nas rádios e TV.

BD — E o próximo disco?

Karol — Já comecei. Deve ficar pronto lá pro meio do ano que vem. Mas ainda estou na primeira música. Escrevi e gravei parte dela em Paris. O segundo disco é sempre mais carregado de pressão e de expectativas. Quando estava fazendo o Batuk Freak, eu não tinha muito dinheiro, mas tinha bastante tempo... então, às vezes, ficava o dia inteiro fritando em uma música. Agora tudo tem prazo. Além da agenda de shows, entrevistas... a coisa ficou mais agitada. Tenho que ter bastante foco para entender que estou passando por um novo processo e que preciso deixar de lado qualquer pressão. Vou trabalhar com o mesmo sentimento do Batuk..., só que de forma mais madura. Lancei meu disco há quase dois anos e acho que, nesse período, aprendi bastante coisa que pode enriquecer meu próximo trabalho. Ele pode ser melhor, igual ou pior que o primeiro. Mas o importante é que ele seja, que ele exista. Arte é assim, você a solta para o mundo. A aceitação ou não da crítica não pode me abalar e interferir no meu processo de criação. Quem gostar, gostou, quem não gostar, ok. Arte não é uma tarefa ou lição de casa que o professor passa e depois dá nota. Costumo brincar que estou grávida do meu segundo filho e que preciso me alimentar bem pra que essa criança nasça saudável. Então, até o disco ficar pronto, vou me alimentar de cultura e me rodear de gente interessante que venha me acrescenta coisas boas.

BD — E o que você tem ouvido?

Karol  Estou escutando bastante house, kuduro, música caribenha... Uma coisa que eu sempre ouço é Timbalada. Mas agora tenho descoberto outros grupos baianos dos anos 90... Também estou ouvindo muita coisa de Angola. Tem uma artista de lá que é bem legal, a Titica: “Olha o boneco, olha a boneca...” [cantarola] Gosto muito. Mas é engraçado, porque ouço essas coisas e digo que é para fazer meu disco, mas pode ser que ele saia totalmente diferente disso tudo. Porque não quero copiar ninguém. Estou apenas me inspirando... essas músicas podem me despertar para alguma coisa que não necessariamente tem a ver com elas, sabe? Ainda não tenho a menor noção de como será o meu próximo trabalho. Só posso afirmar que ele virá bem Karol. Porque não sou uma artista que é só intérprete e que deixa tudo nas mãos do produtor...

BD  Vai continuar trabalhando com o Nave?

Karol  Não. Como já trabalhei com ele no Batuk Freak, quero experimentar algo diferente. Não gosto muito de rotina, então agora que entrei para o selo Bummm [da plataforma Skol Music], estou trabalhando com o [DJ e produtor] Zegon. Será ele que vai dirigir o meu novo disco, que vai me dar apoio. Quero chamar bastante gente interessante do Brasil pra participar. Mas tudo em silêncio pra, quando lançar, dar aquela tombada! [risos]



4 Responses to A MÚSICA DA FALA

  1. AI MEU DEUS, COMO EU ADORO ELA!!!

    GAROTA, SE VOCÊ ESTIVER LENDO ISSO, INVISTA MUITO EM "TOMBEI"! É HIT, TEM TUDO PRA TOMBAR VERDADEIRAMENTE O MAINSTREAM!

  2. Bela entrevista. Como você fez? Pessoalmente? ou via vias virtuais?
    Abraço

    Gustavo
    ps.: parabéns, claro.

comente