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colagem: márcio bulk

Quando era pequeno, meu filho costumava pedir que eu cantasse sobre qualquer objeto, animal ou situação que passasse pela sua cabeça. Ele trazia uma certeza absoluta de que, para qualquer coisa no mundo, haveria de existir uma música. Então, cantávamos para formigas, chocolate, areia, cama, balde, camisa, elefante, garfo, panela, vento... E como ele estava certo!

Desde que eu era criança, as estações do ano me parecem ser representadas por ciclos festivos. No calor, as músicas e danças também ficam mais quentes e leves, precisam de ar e espaço, por isso tomam os terreiros e quintais até chegarem às ruas. No inverno, chove e a música ocupa as salas, as varandas, os arraiais, e dançamos mais juntos, em par ou de mãos dadas. E foi assim que escolhi minha profissão: quando entendi que a música é necessidade que vem do corpo, um instinto primeiro, quase como mamar e chorar. Percebi que ela, a música, também vem do chão, das plantas, do mar... Vem da parte mais profunda da nossa natureza e assim sempre se transforma e pode nos ajudar a transcender e a buscar o divino — com todas as diferentes faces que o divino possa ter.

Aos 18 anos, escolhi ser percussionista. Pouco depois, percebi que precisava falar e cantar sobre as coisas que ouvia, lia, via e sentia, e assim comecei a compor – essa é uma das partes mais instigantes e desafiadoras do trabalho criativo. Eu me assumi cantora quando percebi que queria encontrar a minha própria voz  e essa é uma busca para toda a vida. Escolhi ser musicista aos 18 anos e escolhi continuar sendo outras tantas vezes.


Dentre todas as atividades que exerço no meu trabalho (cantar, tocar, compor, ensaiar, gravar, produzir, ensinar, escrever, estudar), boa parte dos meus esforços são para que exista o momento do show. O palco (seja real ou imagético) é, para mim, o lugar do encontro, onde a música fica quase tátil, ganha espaço no ambiente, transpassa nossos corpos e nos aproxima, renova o sentido das coisas e os desejos, fortalece as vontades e faz valer a pena até os dias mais difíceis. 
Nem todo show é perfeito. Nem todo show é fácil. Não há "jogo ganho" assim como acontece em qualquer encontro, mas é justamente esse desafio que deixa tudo mais instigante. Esse é o momento em que coloco o meu “brinquedo na rua” e reafirmo meus compromissos comigo mesma, com o lugar e com a cultura que me formaram  e compromisso não significa estar preso ou amarrado, significa reconhecer de onde você veio e falar das pessoas com quem brincou e, principalmente, dos que brincaram muito antes de você existir; significa pensar pra onde se quer ir. Reconhecer isso pode ser libertador!


Alessandra Leão

Verão de 2015

Alessandra Leão é cantora, compositora e percussionista. Integrou, inicialmente, a banda Comadre Fulorzinha, com quem lançou o disco homônimo (1999, CPC Unes). Seu primeiro álbum solo, Brinquedo de Tambor (independente), foi lançado em 2006. Em 2008, idealizou e coordenou o projeto Folia de Santo (Garganta Records). Em 2009, promoveu seu segundo trabalho, Dois Cordões (Garganta Records). No ano seguinte, compôs a trilha sonora do espetáculo teatral Guerreiras, de  Luciana Lyra. No final de 2014 e ao longo de 2015, esteve envolvida na produção e na divulgação de Língua (Garganta Records), a trilogia de EPs constituída dos capítulos: Pedra de Sal, Aço e Língua.

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colagem: márcio bulk

A música nasceu para mim, no meu delírio genealógico, do enleio entre o útero da minha mãe, sua musicalidade e o seu canto. Penso nos meses da sua gravidez, penso nela ao tocar piano e, por fim, lembro-me de que os pequenos acalantos improvisados para me ninar foram o nosso primeiro código tácito de afeto. Inicio assim, com uma digressão, como forma de explicar (e também compreender) o papel da música para mim como gesto afetivo, completamente ligado aos sentidos, e determinantemente empírico; subjetivo.

Sou nascido numa pequena cidade do interior de Minas Gerais: Diamantina. Uma cidadela tradicional mineira, que tem hoje algo em torno de cinquenta mil habitantes, com uma história muito interessante e de especial protagonismo por um período da história do Brasil. Com profunda vocação para a música e para a musicalidade, é uma cidade festiva e de arquitetura barroca leve e clara. Minha mãe, uma pianista mulata, nasceu e foi criada lá, tendo sido por alguns anos a diretora do Conservatório de Música. Casou-se com meu pai, um comerciante de olhos claros nascido na região central de Minas Gerais, Moema. A influência mais direta da música na vida da minha família, através de um ensino mais formal, está relacionado efetivamente à minha mãe. Cresci junto dela, fazendo aulas e oficinas na sua escola de música. Somos três irmãos, dois homens e uma mulher, e todos temos a música apontando para o norte de nossas bússolas. Meu pai, por sua vez, sempre foi um profundo admirador da música e na sua adolescência chegou a ser percussionista numa banda de baile. Toda a informação de música regional e verdadeiramente popular, com traço romântico ou mesmo brega, veio dele. E portanto, na nossa família a música deve ser compreendida sempre através dessa narrativa ambivalente. A porosidade do nosso tecido é atuante desde o encontro dos nossos pais.

Algo marcante nessa trajetória em busca do fazer música, tornar-se um músico, surgiu ainda na infância quando os heróis dos desenhos animados da TV começaram a dividir o seu protagonismo com os músicos pop stars que surgiam através da chegada da adolescência dos meus irmãos mais velhos. E que eu, naturalmente, ouvia. Isso coincidiu com a chegada de um aparelho que tocava CD lá em casa. Lembro-me com clareza das tardes que passei ouvindo discos, imitando os músicos, e formulando em mim um incipiente desejo de ser aquilo, e não mais jogador de futebol ou, sei lá, astronauta.

A história se desdobra nos diversos momentos que vieram a seguir. A descoberta, pouco a pouco, dos universos mais distintos, dos territórios mais maravilhosos que a música viria a ocupar no centro da minha fruição; tantos e tantos e tantos e tantos discos, shows, concertos, elevadores, propagandas... Não obstante, foi entre e infância e adolescência que tive a chance de me aproximar de diversos instrumentos e me sentir seduzido pela oportunidade de querer todos como forma de expressão. Estudei violão, piano, flauta, violino, percussão, bateria, canto... enfim, uma infinidade de possibilidades. E isso, para mim, só explica o fato de que a música foi se tornando exclusivamente um meio de expressão. Uma língua inventada por mim, pela minha compreensão das coisas, onde seria possível me conectar com o mundo através das formas mais subjetivas. É como se a música fosse, em suma, o meu meio de me ligar a esse centro sagrado, esse magma espiritual que, de uma forma ou de outra, a existência de todos aqui na Terra tenta, ao menos, triscar. Fazer música, tê-la comigo como algo além de uma profissão, mas um status que me define para além até da sociedade, é dividir com o mundo uma instabilidade que toca a todos. Essa busca do eu, de afunilar a percepção do mundo para uma compilação de sensações (uma canção!), tentar reproduzir isso, fazer com essa expressão chegue à sensibilidade do outro e o atravesse... em suma, a música foi se tornando isso para mim.

Agora, ocorre-me o exemplo da luz, do feixe de luz que atravessa uma pessoa, preenche seu corpo, sua saúde, sua matéria desse finíssimo pó de existência. Penso na música através desse exemplo e encontro abrigo. Percebo nela uma fragilidade, uma ambígua coadunação com o silêncio. E ao mesmo tempo, e por isso mesmo, uma força violenta que pode abrir canais da existência de formas avassaladoras, e se manifestar através de lágrimas, sorrisos, decisões, apontamentos, coragem, amor.

E tendo dito isso, coloco-me em vida à prova disso tudo. Sabendo que a deusa Música abre seus canais de diálogo com uma sensibilidade única, ligar-se a ela é exercício meditativo diário. Penso sempre que esses canais que foram abertos com grandeza épica nesta época que vivemos, trouxe também uma desordem grande, um cansaço, um distúrbio, um sintoma. E música, para mim, tem também se tornado uma busca pelo silêncio. Fazê-la tem sido oportunidade de não persegui-la.

Em suma, esse castelo de areia que se constrói para se explicar o artesanato da feitura da música se choca diretamente com a existência dela nas nossas vidas. Afinal, música e silêncio serão sempre maiores que o nosso falatório (‘inda que o falatório deseje ser poesia, e portanto música). E por fim, respondo-te: Porque você faz música? Não sei.

César Lacerda é cantor, compositor e multi-instrumentista. Lançou seu primeiro álbum, Porquê da voz (independente) em 2013. Seu disco seguinte, Paralelos & infinitos, foi lançado em 2015 pela gravadora Joia Moderna. Paralelamente, participou de diversos projetos, como Instantâneos (DOBRA/Bolacha Discos), Banquete (Banda Desenhada Records) e Mar Azul (Slap).

A MÚSICA DA FALA

foto: daryan dornelles
No ano de 1985, em meio a punks e skatistas, já era possível assistir aos primeiros b-boys se reunindo na estação de metrô São Bento, no centro da capital paulistana. A cultura hip-hop, vista não só como uma forma de entretenimento, mas também de protesto e de superação, encontrou nos jovens das periferias de São Paulo um terreno fértil para se desenvolver. Musicalmente, o rap era a linguagem mais legítima, criativa e poética para aqueles que vinham, há gerações, sofrendo de extrema vulnerabilidade social.

Mesmo utilizando uma linguagem bastante hostil e invasiva, o rap conseguiu ganhar espaço na mídia na década seguinte. Não era mais possível ignorar a agitação promovida por nomes como Racionais MC’s (SP), Pavilhão 9 (SP), MV Bill (RJ), Planet Hemp (RJ), Faces do Subúrbio (PE), GOG (DF), Câmbio Negro (DF) e seus milhares de seguidores. Entretanto, com a virada do século, ficaram nítidas as mudanças pelas quais o rap nacional estava passando: mais permeável, aderiu-se a outros gêneros e discursos, atenuando assim o seu caráter político. Mesmo com a crítica das alas mais ortodoxas do movimento, diversos artistas aproximaram-se de uma estética pop, caso de Projota, Karol Conka, Rael e Flávio Renegado. Com uma visão mais pragmática e conciliatória, uma nova geração de rappers conseguiu penetrar em espaços pouco propensos ao gênero e, consequentemente, ser absorvida pelo mercado e criar novos padrões estéticos e comportamentais.

Vinda da periferia de Curitiba (PR), Karol começou sua carreira em 2002. No ano seguinte, integrou o grupo Agamenon, ao lado dos MC’s Bigue, Cadelis e Cilho. Mais a frente, participou com Cadelis, Nairóbi, Mike Fort, São Nunca, Guerra Santa e Nel Sentimentum do grupo Upground Beats. Em 2008, já em carreira solo, teve o seu single “Me garanto” indicado ao prêmio Hutuz na categoria “Melhor demo feminino”. Em 2011, disponibilizou para download um EP promocional com sete músicas, dentre elas “Melhor que se faz” e “Marias”. Com a boa repercussão do trabalho, Karol investiu em seu primeiro clipe, “Boa noite”, o que a levou a concorrer na categoria “Aposta” no VMB 2011. Em 2013, lançou seu álbum de estreia, o elogiado Batuk Freak (Deckdisc), produzido por Nave Beatz. Influenciado pela música tradicional e com referências às religiões afro-brasileiras, o disco abordava temas relacionados ao universo feminino e ao preconceito racial. A convite de Boss in Drama, participou do single e do clipe de “Toda doida”, eleita uma das dez melhores músicas de 2013 pela revista Rolling Stone. No mesmo ano, ganhou o Prêmio Multishow na categoria “Artista revelação”. Sua música, “Boa noite”, foi escolhida para fazer parte da trilha sonora do game Fifa 14. Em abril deste ano, ganhou destaque ao aparecer em uma lista de “Dez novos artistas que você precisa conhecer” da revista Rolling Stone norte-americana.

Encontramos a rapper no Teatro Oi Futuro Ipanema. Recém-chegada de sua terceira turnê pela Europa, Karol veio ao Rio para se apresentar no festival Sonoridades ao lado de BaianaSystem e Márcio Victor. No café do teatro, conversamos a respeito de sua carreira, cena curitibana, racismo e seu próximo álbum.

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BANQUETE




| BANQUETE | CADU TENÓRIO + MÁRCIO BULK |
Alice Caymmi | Bruno Cosentino | César Lacerda | Lívia Nestrovski | Michele Leal | Rafael Rocha


1. “Café expresso”
César Lacerda/Márcio Bulk
Voz: Michele Leal
Violão: César Lacerda
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

2. “Estela”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Voz: Alice Caymmi e Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

3. “Electric fish”
Bruno Cosentino/Márcio Bulk
Versão para o inglês: Sylvio Fraga Neto
Voz: Cesar Lacerda
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

4. “Em transe”
Rafael Rocha/Márcio Bulk
Voz: Lívia Nestrovski
Violão: Bruno Cosentino
Sintetizadores, violino, objetos amplificados, manipulação com fitas cassete, ruídos e processamento: Cadu Tenório

Produzido por Cadu Tenório e Márcio Bulk
Arranjos: Cadu Tenório
Gravado nos estúdios 503, Audio Rebel, Marini e Clemente II
Mixado por Cadu Tenório e Emygdio Costa
Masterizado por Emygdio Costa
Projeto gráfico: Márcio Bulk e Rodrigo Sommer
Capa: “Nature morte aux coquillages et au corail”, Jacques Linard


Banquete, o samba-canção manco de Cadu Tenório e Márcio Bulk
Marcos Lacerda

A canção é uma linguagem artística generosa, múltipla e com uma densidade presente tanto em suas formas harmônico-melódicas mais complexas, quanto nos mais simples samba-canções e boleros. Quem realmente a conhece sabe da sua capacidade de gerar encontros e atritos entre as mais diversas linguagens, inclusive em experimentos sonoros radicais, como vem fazendo um segmento expressivo da canção brasileira contemporânea. Esta desenvolveu, ao longo dos últimos anos, um diálogo forte com a música “experimental” ou “de invenção”, algo que podemos constatar de forma clara em Banquete, o mais novo projeto de Cadu Tenório e Márcio Bulk.

Integrante da chamada cena experimental carioca, o músico e produtor Cadu Tenório é conhecido por encabeçar diversos projetos musicais, dentre eles, Sobre a Máquina, VICTIM! e Ceticências. Em quatro anos de carreira, esteve envolvido na produção e lançou mais de 20 discos. Nesse mesmo período, através do blog Banda Desenhada, o pesquisador musical Márcio Bulk dirigiu e lançou o álbum E volto para curtir (2013), no qual nomes da nova geração regravaram o primeiro disco de Jards Macalé (homônimo, 1972). No final de 2013, lançou o single Soluços (Jards Macalé), sua primeira parceria com Cadu Tenório. Agora, com o EP Banquete, Bulk exibe pela primeira vez sua veia poética. Com influência do samba-canção e das obras de Ana Cristina Cesar e Caio Fernando Abreu, suas letras foram musicadas e interpretadas por alguns dos artistas mais relevantes da atual cena carioca: Alice Caymmi, Bruno Cosentino, César Lacerda, Lívia Nestrovski, Michele Leal e Rafael Rocha. As canções, inicialmente gravadas com acompanhamento de violão, foram desconstruídas e recriadas por Tenório através de processos eletroacústicos que dialogam de forma direta com as letras e com a interpretação dos cantores, remetendo, por vezes, aos trabalhos inventivos de artistas como Scott Walker, Serge Gainsbourg, Nico, Yoko Ono e Björk.

Dessa forma, podemos dizer que Banquete é um disco bastante árduo, com poética e sonoridade forte e dolorosa, expressando as nervuras de um mundo cuja materialidade é feita de opacidades, sombras e lacunas, além de uma miríade de ruídos que soam como ensaios de despersonalização radical. Entretanto, esses “ensaios” não se resumem a apenas acompanhar a temática das canções. Indo além, Tenório utiliza de suas ferramentas para reiterar o seu posto de coautor do álbum, tornando-se figura decisiva para a sua significação estética. Isso se dá por conta da relação intencionalmente conflituosa entre a dimensão sonora de seus arranjos e as estruturas harmônica e melódica das canções, o que gera uma tensão entre a materialidade sonora — feita de atritos, justaposições, cortes abruptos e acelerações repentinas — e as formas relativamente coesas e inteligíveis da palavra cantada.

A primeira faixa, “Café expresso” (César Lacerda/Márcio Bulk), é interpretada por Michele Leal. A canção se inicia ao som de um violão, como se saído de uma fita antiga, interrompido bruscamente pelo ruído de uma máquina ou veículo acelerando. Esta instabilidade entre a forma sonora inteligível e a aceleração abrupta permeia todo o disco e é o “recanto escuro” no qual as formas poético-musicais das canções vão se fissurando e se esgarçando. Nesse primeiro caso, temos a experiência da frustração diante da perda, na voz do outro cuja presença ainda se sente (“a sua voz ainda/ecoa pelo meu dorso”) e no corpo, que se perde e se anula, em meio a tantos suportes materiais (cama, remédios, escadas, aço, vidros). Michele consegue, de forma bastante criativa, enriquecer essa trama, deixando de lado, ao final da canção, o seu tom dramático e, tomada de ironia, se aventurar em um spoken word. A canção seguinte, “Estela” (Márcio Bulk/Bruno Cosentino), trata-se de uma bela e sensível homenagem à cantora Stella Maris (1922–2008), esposa de Dorival Caymmi (1914–2008). Interpretada por Bruno Cosentino e Alice Caymmi, neta de Stella, a canção é um apelo desolador diante do medo da separação e da morte. A paisagem oceânica (recifes, pedras, embarcações, horizontes) torna-se símbolo de incomunicabilidade, personificada como testemunha ocular de todo o drama. A forma sonora do álbum, emaranhada de melancolia, só é levemente superada na transgressão do sexo e do gozo — de raras figurações ou mediações simbólicas — como se vê na canção “Eletric fish” (Bruno Cosentino/Márcio Bulk), interpretada por César Lacerda. O cantor dá vida a um personagem cambaleante e bêbado, o que é a deixa para que Tenório possa brincar com a métrica da canção, repleta de mudanças drásticas e vai e vens. Por fim, temos “Em transe” (Rafael Rocha/Márcio Bulk), interpretada de forma impressionante por Lívia Nestrovski. A música amalgama e dá cabo dos principais temas de Banquete: a solidão, a perversidade do discurso amoroso, o ruído e o seu incômodo, impresso por Tenório nas camadas e mais camadas sonoras que ele utiliza ao trabalhar a voz de Lívia. Esta, na busca por sua inteireza, produz uma melodia que derrete e explode na espessura rugosa e inquieta da canção (“um samba-canção manco”).

Com Banquete, Márcio Bulk se revela um letrista sofisticado, fino e de poética densa que, ao se unir à sonoridade sombria e engenhosa de Cadu Tenório, produziu um pequeno grande disco capaz de dialogar seriamente com a estética musical mais inventiva do nosso tempo, sem abandonar a linguagem da canção e suas singularidades.


Marcos Lacerda é sociólogo, crítico, pesquisador da história da canção e editor da revista Polivox.

CADA TEMPO EM SEU LUGAR

fotos: daryan dornelles
São Paulo, 2008. Enquanto Romulo Fróes se encaminhava para seu terceiro álbum e Juçara Marçal iniciava sua parceira com Kiko Dinucci, Pipo Pegoraro lançava de forma independente seu primeiro disco solo, Intro. Na mesma época, Thiago Pethit estreava com seu EP Em outro lugar (independente) e Curumin lançava seu segundo álbum, Japan pop show (Urban Jungle). Faltava bem pouco para que críticos e jornalistas de todo o país voltassem a sua atenção para a produção musical da cidade, fato que ocorreu em 2010, com a excelente acolhida dos álbuns de estreia de Karina Buhr (Eu menti para você, independente), Marcelo Jeneci (Feito para acabar, Slap/Som Livre) e Tulipa Ruiz (Efêmera, YB Music). Bastante receptiva aos novos artistas e seus trabalhos autorais, São Paulo passou a fomentar, no decorrer dos últimos anos, uma das cenas musicais mais prolíferas e criativas do Brasil.

É a respeito dessa movimentação que conversamos com Pipo Pegoraro. Figura bastante ativa no cenário paulistano, o músico lançou seu segundo álbum, Taxi Imã (YB Music), em 2011, produzido pelo cantor e compositor Bruno Morais. No ano seguinte, trabalhou na produção da música “Eva e eu", interpretada por Anelis e Serena Assumpção para o disco tributo a Péricles Cavalcanti, Mulheres de Péricles (Joia Moderna). Ainda em 2012, passou a integrar o coletivo Aláfia, lançando álbum homônimo no ano seguinte pela YB Music. Em 2013, produziu duas faixas para o cantor Filipe Catto: “Meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata”, de Capinan e Jards Macalé, para o disco E volto pra curtir (Banda Desenhada Records); e “Flor da idade”, de Chico Buarque, para a trilha sonora da novela Jóia Rara, da TV Globo. Além de participar como músico e arranjador do programa Cantoras do Brasil, do Canal Brasil, Pipo também é responsável por diversas trilhas sonoras de documentários e espetáculos de dança.

Conversamos com o músico algumas semanas antes do lançamento de seu terceiro disco, Mergulhar mergulhei (YB Music). Com direção artística de Romulo Fróes e contando com a participação de Xênia França, Luz Marina e Filipe Catto, o álbum foi recentemente disponibilizado para download gratuito e teve, há poucos dias, seu show de lançamento na Choperia do Sesc Pompeia (SP).

Nosso encontro se deu em uma das vindas de Pipo ao Rio, em um restaurante no bairro do Leme, onde falamos a respeito de sua carreira, o novo trabalho, influências e a cena paulistana.

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ISTO NÃO É UM POEMA

fotos: daryan dornelles
Criado em 1990 pelos poetas Chacal e Guilherme Zarvos, o CEP 20.000 tornou-se ao longo dos anos um dos pontos de referência da produção cultural carioca. Tendo por objetivo ser um espaço para a inovação e o diálogo entre artistas de diversas áreas, o CEP (Centro de Experimentação Poética) vem mantendo suas portas abertas para que novos nomes surjam e amadureçam seus trabalhos. Pelo seu palco principal — o Espaço Cultural Sérgio Porto — já passaram centenas de escritores, performers, artistas plásticos, atores e músicos. Michel Melamed, Rubinho Jacobina, Pedro Luis e a Parede, Mulheres Q Dizem Sim, Viviane Mosé, Funk Fuckers, Jonas Sá, Ericson Pires, Boato, Rogério Skylab, Gregório Duvivier, Thalma de Freitas, Os Outros, Fausto Fawcett, Do Amor, André Dahmer, Qinho, Chelpa Ferro, Letuce, Mariano Marovatto... a lista é longa e bastante significativa. O evento sempre teve uma estreita ligação com a cena musical carioca, o que o tornou um dos responsáveis pelo surgimento do mais importante festival de música independente da cidade, o Humaitá Pra Peixe, criado em 1994. Com o passar dos anos, o CEP diversificou-se e passou a ter, em alguns momentos, um caráter itinerante, percorrendo bairros das zonas norte e oeste, como Méier, Pavuna, Complexo da Maré, Bangu e Campo Grande.

Uma de suas crias mais conhecidas, o músico e escritor Botika começou sua carreira aos 12 anos, como ator na peça infantil A Mulher que matou os peixes, baseada na obra de Clarice Lispector. Mais tarde, envolveu-se com a música, por influência de seu pai, o compositor e diretor musical Caíque Botikay. Junto com o amigo e parceiro Vitor Paiva, integrou as bandas A Neura e Os Outros, lançando dois discos: Nós somos Os Outros (2007, Bolacha Discos) e Pacote felicidade (2010, Bolacha Discos). Paralelamente, envolveu-se com a literatura, publicando em 2004, seu primeiro livro, Autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue Editoral), inspirado em PanAmérica (1967, Ed. Tridente), de Agripino de Paula. Seis anos depois, publicou o elogiado Búfalo (Língua Geral). Em 2012, lançou com sua banda e a cantora Teresa Cristina o álbum Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos (Deckdisc), onde interpretam canções de Roberto Carlos. Ao lado de Paulo Tiefenthaler, Alexandre Vogler e Guga Ferraz, foi um dos idealizadores do Aplique de Carne, projeto multimídia apresentado em 2013 no Galpão 5, da Funarte, em Belo Horizonte. Nesse mesmo ano, foi convidado pela jornalista Lorena Calábria a participar do projeto Agenor — As canções de Cazuza (Joia Moderna), onde fez uma releitura de “Ritual”, composição de Cazuza e Roberto Frejat. Ainda em 2013, ganhou destaque na mídia ao se envolver em uma discussão e ser agredido pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Em 2014, já com a banda desfeita e em carreira solo, lançou Picolé de cabeça (Bolacha Discos), produzido por Bernardo Palmeira.

Após diversas conversas e resolvidos alguns contratempos, fomos entrevistar Botika em sua casa, em Botafogo, no dia seguinte ao show que realizou no Espaço Cultural Sérgio Porto, onde dividiu o palco com a banda Do Amor. Contando com a presença de sua esposa, a produtora Ana Maria Bonjour, grávida de nove meses de sua primeira filha, Odete, Botika nos falou a respeito de sua carreira, projetos musicais e literários e da importância do CEP 20.000 para a cena carioca.

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CANTO PUNHALADA

fotos: daryan dornelles

A palo seco é o cante
de grito mais extremo:
tem de subir mais alto
que onde sobe o silêncio;
é cantar contra a queda,
é um cante para cima,
em que se há de subir
cortando, e contra a fibra.

Ao escrever o poema “A palo seco” (Quaderna, Guimarães Editores, 1960), João Cabral de Melo Neto evidenciou o que lhe era mais caro em seu ofício: a busca por uma escrita exata e contundente, mimetizada à rudeza do sertão nordestino e ao canto flamenco. Uma poesia sem rodeios e aguda. Como Encarnado, primeiro álbum solo de Juçara Marçal. O disco foi lançado de forma independente em fevereiro deste ano e vem sendo considerado por diversos jornalistas e críticos musicais como um dos melhores de 2014. Interpretando canções onde vida e morte se embatem a todo instante, Juçara dá voz a personagens extremamente fortes que, em situações limítrofes, percorrem uma via crucis onde já não há mais espaço para jogos ou floreios. É tudo ou nada. É “o cante a palo seco/sem o tempero ou ajuda”. Contudo, diferente do poema, o canto de Juçara nunca se faz só. Mesmo ao interpretar canções pontuadas pela desolação, é através da confiança em seus parceiros que a artista vem construindo sua carreira ao longo dos anos.

Intérprete de voz singular, Juçara tornou-se uma das mais importantes cantoras da música brasileira contemporânea. Nasceu em Duque de Caxias (RJ), mas foi, ainda criança, para São Caetano do Sul (SP), mudando-se, em seguida, para São Sebastião (SP). Radicada na capital paulista desde o início dos anos 90, iniciou sua carreira artística ao integrar a Companhia Coral, sob a regência do maestro Samuel Kerr e direção cênica de Willian Pereira. Ingressou em 1991 no grupo Vésper Vocal, com quem lançou quatro discos: Flor d’Elis (Dabliú Discos, 1998), Noel Adoniran  180 anos de samba (Eldorado, 2002), Ser tão paulista (CPC-Umes, 2004) e Vésper na lida (Pôr do Som, 2013). Em 1998, tomou parte do grupo A Barca, com quem realizou uma extensa pesquisa na área de cultura popular, o que resultou em dois álbuns, Turista aprendiz (CPC-Umes, 2000) e Baião de princesas (CPC-Umes, 2002), além de Trilha, toada e trupé (Cooperativa de Música, 2006), caixa com três CDs e um DVD,  e a Coleção Turista Aprendiz (Cooperativa de Música, 2010), contendo vários registros sonoros e sete curtas. Em 2007, ao lado do violonista e compositor Kiko Dinucci, iniciou sua parceria mais prolífera, lançando o disco Padê (2007, Cooperativa de Música). No ano seguinte, formou com Kiko e o saxofonista Thiago França o trio Metá Metá. Com o Metá Metá, lançou dois álbuns: Metá Metá (Desmonta, 2011) e Metal Metal (independente, 2012). O trio ganhou, em 2013, o Prêmio Multishow de “Música compartilhada”, tendo sido também indicado às categorias “Disco do ano” e “Versão do ano”, com a canção “Let’s Play That” de Jards Macalé, regravada no disco E volto para curtir (Banda Desenhada Records,2013). O grupo já realizou turnês em diversos estados do país, além da Europa e América Latina. Em 2014, Juçara lançou Encarnado. No disco, interpretou canções de seus colegas Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Thiago França, além de Itamar Assumpção, Tom Zé, Siba, entre outros.

Em turnê de lançamento de seu álbum, Juçara veio ao Rio, onde se apresentou em curta temporada na Audio Rebel. Aproveitamos a oportunidade para entrevistá-la em um passeio pelo Largo do Machado e o bairro do Flamengo. Ali, conversamos a respeito de sua carreira, parcerias, vanguarda paulista e muito mais.

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